UMA VISÃO DE UM MUNDO MARGINALIZADO


O rio Jacaré, que canalizei quando secretário de Desebnvolvimento Social e uma vista aérea da comunidade
UM DOMINGO NO JACAREZINHO ATERRORIZADO PELO CAVEIRÃO
"Os métodos de ação do Caveirão são para implantar o medo, não para garantir segurança".
Depoimento de moradores ao Centro de Mídia Independente
Estava ontem, em campanha, no Jacarezinho quando espocaram 4 foguetes. Era o sinal de que o “caveirão” estava lá, em pleno domingo, quando todos ficam na rua, num frenético vai e vem na feirinha da prainha e no movimentado comércio da Rua Amaro Rangel.
Disseram-me que o tanque de guerra da polícia fluminense estava na Praça da Concórdia, cenário do epílogo do meu romance “O Assassino das Sextas-Feiras”. Pequeno espaço aberto numa favela de barracos amontoados para abrir mais de 80 mil pessoas, a Concórdia irradia se irradia para todo o Jacarezinho.
O domingo dos moradores acabou. Pelo sim, pelo não, todos recolhem-se aos refúgio dos seus barracos de alvenaria. Quando digo todos, falo principalmente dos milhares de trabalhadores, desempregados e velhos de uma comunidade de 75 anos, que cresceu como dormitório do então parque metalúrgico do Jacaré, até a década de 70 o segundo pólo industrial da cidade.
Por que o “caveirão” estava ali, naquele domingo? Não sei. O que posso dizer é que devido às incursões sistemáticas da polícia, que não parece interessada em combater os bandidos, mas em punir a favela onde alguns deles se escondem, o Jacarezinho está virando um grande gueto.
Aberta à qualquer campanha eleitoral, a comunidade não parece este ano envolvida na disputa. São poucos os candidatos, mesmo a deputados, que têm ido lá em busca dos quase 45 mil votos, a grande maioria da 8ª Zona Eleitoral. Os mais ricos estão lá em formas de placas espalhadas em abundância e através de alguns cabos eleitorais profissionais.
Ao contrário do que sempre aconteceu, só alguns candidatos que disputam o governo do Estado incluíram a segunda maior favela do Rio de Janeiro em suas agendas. Marcelo Crivella fez uma encenação e foi lá rapidamente. Eduardo Paes percorreu alguns metros do seu centro comercial, tal como Vladimir Palmeira. Mas os mais cotados – Sérgio Cabral e Denise Frossard – não tomaram conhecimento dos rostos ansiosos daquela gente sofrida e sem muitas esperanças de dias melhores.
Ontem me lembrei da consagradora caminhada de Leonel Brizola, em 12 de outubro de 1982. Naquele ano, o pleito foi em 15 de novembro. E foi exatamente a partir daquele dia que o inquieto gaúcho começou a reverter as pesquisas até ser eleito, apesar da trama da Proconsult, que programou seus computadores para impedir sua vitória.
Como o “caveirão” estava lá e os moradores ficaram nervosos, não pude fazer minha caminhada. Fiquei conversando com algumas pessoas na esquina da Amaro Rangel com a rua Maria Laura, onde fica nosso comitê político, um dos raros instalados lá, em contraste com outros tempos, quando existiam mais de 40 comitês eleitorais.
Dormitório de metalúrgicos
Por ter sido erguido em boa parte por metalúrgicos e trabalhadores do grande Jacaré, o Jacarezinho tem uma história política marcante. Nos anos de chumbo, foi um reduto do voto oposicionista. Lá, Lysâneas Maciel e Edson Khair, deputados do grupo “autêntico” do velho MDB, tinham suas maiores votações.
E não precisavam para isso de montar onerosos “serviços sociais”, como fazem os políticos clientelistas de hoje. É curioso, aliás, que esse tipo de arapuca nunca vingou no Jacarezinho. Enquanto em favelas como o complexo da Maré, e Rocinha os políticos instalam seus consultórios médicos e oferecem serviços de ambulâncias, lá quem tentou angariar votos por este sistema de troca-troca acabou desistindo.
É verdade que, como em outros morros, há no Jacarezinho algumas dezenas de jovens armados, integrados nessa rede de venda de tóxicos. Mas é verdade também que, como em outras favelas, lá não se fabrica, nem se refina qualquer tipo de droga.
As favelas são usadas como pontos de venda exatamente pelo abandono dos governos, que são incapazes de articular políticas sociais sérias e, quando aparecem é para oferecer migalhas, do tipo bolsa família ou cheque cidadão, geralmente manipuladas.
Há nos arredores do Jacarezinho dezenas de galpões fechados, que no passado foram indústrias de grande produção. Até a General Eletric, que tem uma fábrica colada a um bom pedaço da favela e até uma entradinha para o pessoal que vinha de lá prestar serviços, está com sua unidade reduzida a dez por cento do pessoal que empregava há vinte anos.
Pelo que soube, está produzindo apenas algumas lâmpadas. Mesmo assim, de fora, a gente não percebe que funciona alguma coisa onde antes 4 mil trabalhadores batiam o cartão.
Quem quiser entender todo esse ambiente de tensão nas grandes cidades aprenderia muito se tivesse disposição de visitar uma favela como o Jacarezinho. Porque uma favela, por sua natureza, é o maior reflexo da injustiça social, da péssima distribuição de renda, da falta de serviços públicos e da grande chantagem política: nossos homens públicos só costumam aparecer nessas áreas em épocas de eleições e criaram uma idéia de que tudo o que o governo fizer lá será um grande favor, para o qual cobram uma boa fartura de votos.
Não é por acaso que muitos meninos se deixam encantar pela possibilidade de empunhar uma arma e desfrutarem de alguns meses ou anos de poder. Eles sabem que essa é uma conquista efêmera, mas ainda acham que compensa, até porque se consideram marginalizados, independente do que fizerem.
E aí está o nó. Quando fui secretário de Desenvolvimento Social, realizei um programa de “estágios” de adolescentes no Banco do Brasil. Preenchi quase 600 vagas com meninos de favelas. Mais de 200 iam do Jacarezinho para o CPD do banco, na Rua Barão de São Francisco. Nunca recebi uma queixa dos gestores do programa. E de vez em quando, quando percorro suas ruas, encontro um pai de família que me refresca a memória:
- Eu sou um daqueles garotos que trabalhou como estagiário no Banco do Brasil. Hoje, sou bancário, trabalho e mantenho minha casa porque tive uma oportunidade lá. Era o ano de 1990.
Jogo pesado
Ao voltar para casa, num condomínio de classe média de Jacarepaguá, vi mais uma obra dos patronos do “caveirão”. Os “plaqueiros” do ex-chefe da Polícia Civil, Álvaro Lins, candidato a deputado estadual, haviam invadido o terreno de um amigo, na Estrada do Bananal. Num abuso de quem “se garante”, arrancaram duas raras placas que mandei confeccionar e colocaram em seu lugar as do policial candidato.
Teria sido mera coincidência? É provável que sim porque seu pessoal é abusado mais da conta mesmo.
coluna@pedroporfirio.com






